Para a maioria dos terapeutas, a carga administrativa da documentação clínica é um caminho direto para o burnout. Os registros de terapia com inteligência artificial (IA) prometem uma saída: um software que escuta, transcreve e redige seus registros na hora, devolvendo suas noites e sua concentração. É uma oferta tentadora.
Mas aqui está o risco: um fornecedor ruim é pior do que nenhum fornecedor. Escolher a plataforma de IA errada expõe você a vazamentos de dados, violações da LGPD e sanções financeiras, sem falar na perda da confiança dos pacientes. Para proteger seu consultório, você precisa olhar além do discurso de vendas. Estas são as 20 perguntas inegociáveis que todo terapeuta precisa fazer antes de assinar um contrato.
Segurança e conformidade: os pontos inegociáveis
Antes de discutir funcionalidades ou preços, confirme se o fornecedor tem condições jurídicas e técnicas de tratar dados de saúde mental. Pela LGPD, dados de saúde são dados pessoais sensíveis. Em geral, você é o controlador, a quem cabem as decisões sobre o tratamento dos dados, e o fornecedor do escriba com IA é o operador, que trata os dados em seu nome.
1. Vocês assinam um contrato de proteção de dados antes de começarmos?
O operador deve tratar os dados segundo as instruções do controlador, que verifica se elas são cumpridas. A LGPD não exige expressamente um contrato entre controlador e operador, mas é recomendável registrar essas instruções e as responsabilidades de cada parte em contrato. Veja nosso guia sobre LGPD e conselhos profissionais.
- Contexto: pela LGPD, o operador também tem deveres próprios, como adotar medidas de segurança, e responde solidariamente pelos danos causados pelo tratamento quando descumpre a legislação de proteção de dados ou não segue as instruções lícitas que você, como controlador, deu. Sem instruções e responsabilidades definidas por escrito, porém, fica difícil demonstrar o que foi combinado. E, se houver um incidente de segurança que possa causar risco ou dano relevante aos pacientes, cabe a você comunicá-lo à ANPD e aos pacientes afetados, no prazo definido pela ANPD.
2. Pergunta complementar
- “O contrato de vocês define as instruções de tratamento, as medidas de segurança, o prazo para vocês me avisarem de um incidente de segurança e as responsabilidades de cada parte, ou traz ressalvas que limitam a responsabilidade de vocês?” Desconfie de fornecedores que limitam a própria responsabilidade ao valor da sua assinatura.
3. Onde meus dados ficam armazenados? (residência de dados)
Os dados ficam em servidores físicos, e a localização desses servidores determina quais leis se aplicam (em inglês).
- Contexto: a LGPD não exige que os dados fiquem no Brasil, mas só permite a transferência internacional de dados pessoais nos casos previstos em lei, como o uso de cláusulas-padrão contratuais aprovadas pela ANPD. Dados armazenados em outro país também podem ficar sujeitos às leis de privacidade estrangeiras ou à apreensão por governos estrangeiros.
4. Pergunta complementar
“Vocês usam um grande provedor de nuvem, como a AWS, ou um data center de terceiros? Em que país os dados ficam e, se saírem do Brasil, qual mecanismo previsto na LGPD ampara essa transferência internacional?” Respostas vagas aqui são um sinal de alerta.
5. O que acontece com as minhas gravações?
Você precisa saber exatamente o que acontece com o arquivo de áudio depois que a IA termina o trabalho.
- Exemplo: pergunte especificamente: “Os arquivos de áudio são excluídos logo após a transcrição ou ficam armazenados? Se ficam armazenados, mesmo que temporariamente, vocês confirmam que eles são criptografados em repouso com AES-256 e em trânsito com TLS 1.3?”
6. A plataforma foi projetada para não reter dados (“retenção zero”)?
Além do armazenamento, você precisa saber se seus dados estão sendo usados para treinar modelos comerciais de IA.
- Contexto: alguns fornecedores veem as transcrições de sessões de terapia como dados de treinamento gratuitos. Usar dados de saúde dos pacientes para aprimorar um modelo aberto ao público é uma quebra de confidencialidade, mesmo que o fornecedor diga que os dados foram “anonimizados”.
Precisão e segurança clínica
Uma IA que escreve rápido não serve para nada se escreve errado. Em contextos clínicos, imprecisões são riscos clínicos. Você precisa entender como o modelo pensa, onde ele falha e como lida com a complexidade do diálogo terapêutico.
7. Como vocês lidam com as “alucinações”?
Uma “alucinação (em inglês)” acontece quando o modelo gera informações que nunca foram ditas. Não é só ouvir errado: o modelo inventa.
- Contexto: imagine uma IA acrescentando “Paciente relata ideação suicida” a um registro quando o assunto nem surgiu. Isso é uma alucinação, e ela cria um registro jurídico e clínico perigoso. Todos os modelos de linguagem de grande porte (LLMs) alucinam em algum grau, mas ferramentas de uso clínico precisam ter salvaguardas.
8. Pergunta complementar
- “Como exatamente o modelo de vocês é ajustado (fine-tuning) para evitar que acrescente sintomas, narrativas ou termos médicos fictícios que não estavam presentes na sessão?”
9. Ele entende as nuances da terapia?
A terapia não é linear. Os pacientes falam do passado, do presente e do futuro, muitas vezes na mesma frase. Uma IA básica não tem o contexto necessário para situar os eventos corretamente.
- Contexto: um paciente pode dizer: “Fiquei tão assustado quanto naquele acidente de carro.” Um modelo genérico pode registrar isso como um evento atual (“paciente relata medo relacionado a acidente de carro hoje”). Um modelo com olhar clínico entende a diferença entre relatar uma lembrança e vivenciar um evento atual.
10. Pergunta complementar
“Como o modelo de vocês diferencia um paciente que descreve um trauma do passado, conta um sonho ou relata um evento atual? Ele consegue interpretar o contexto temporal com precisão?”
11. O modelo aprende a minha especialidade?
Uma IA treinada com conversas gerais, ou mesmo com registros médicos gerais, terá dificuldade com a linguagem da saúde mental.
Detalhe técnico: há uma diferença enorme entre um modelo de linguagem de grande porte genérico (como o ChatGPT padrão) e um modelo ajustado e treinado exclusivamente com transcrições de saúde mental. Um modelo ajustado entende no contexto termos como “TCC”, “terapia de exposição” ou “transferência”.
12. Pergunta complementar
“Como o modelo de vocês lida com abordagens específicas, como terapia comportamental dialética, EMDR ou ludoterapia?”
13. Como ele lida com várias pessoas falando em um ambiente com ruído?
A terapia na vida real não acontece em um estúdio de podcast. Há vozes sobrepostas, choro, ruído de fundo e, às vezes, microfones de baixa qualidade.
- Contexto: a diarização de falantes é a capacidade da IA de identificar “quem falou e quando”. Alta precisão aqui é essencial para não registrar as perguntas do terapeuta como sintomas do paciente.
Fluxo de trabalho e integração com o prontuário eletrônico
O objetivo é uma integração sem atritos.
14. Ele se integra nativamente ao meu prontuário eletrônico?
- Contexto: “integração” pode significar desde uma sincronização bidirecional até uma simples função de copiar e colar. A integração de verdade usa APIs HL7 ou FHIR para levar os dados diretamente aos campos corretos do seu prontuário eletrônico.
15. Pergunta complementar
“Vocês podem me mostrar uma demonstração ao vivo com o meu prontuário eletrônico?”
16. Posso editar o registro antes que ele vá para o prontuário?
Automatizar não deve significar perder o controle. Você é o profissional de saúde; a IA é a assistente.
- Contexto: algumas plataformas enviam os registros direto para o prontuário para economizar cliques. Isso é perigoso. Você precisa ter a chance de revisar, remover informações e reescrever antes que o registro se torne um documento permanente, com valor legal.
17. Quais modelos de nota vocês oferecem?
Supervisores e abordagens diferentes exigem estruturas de registro diferentes.
- Contexto: você precisa saber se a IA consegue seguir os modelos que você já usa, seja SOAP, DAP (em inglês), GIRP (em inglês) ou BIRP (em inglês). A personalização é ainda melhor, porque permite adaptar as seções a populações específicas de pacientes.
Aspectos comerciais e contratuais
Depois de confirmar que o produto funciona, trate o fornecedor como qualquer outro parceiro comercial. Entenda os custos, os riscos e a estratégia de saída antes de assinar.
18. Como funciona a cobrança? (por profissional ou por sessão)
Os modelos de cobrança variam.
- Contexto: alguns fornecedores cobram uma mensalidade fixa por profissional. Outros cobram por “sessão” ou por “registro”, o que pode sair caro se o seu consultório tem um grande volume de atendimentos. Você precisa calcular o custo com base no seu volume real de pacientes.
19. Posso exportar meus dados se eu sair?
Se você decidir sair, seus registros clínicos precisam sair com você.
- Contexto: seus registros pertencem a você e aos seus pacientes, não à empresa de software. Garanta que você consiga recuperar todos os seus dados em um formato utilizável se cancelar a assinatura, seja por custo, falta de funcionalidades ou encerramento do consultório.
20. Pergunta complementar
“Qual é a política de portabilidade de dados de vocês? Se eu cancelar a assinatura, posso exportar todos os registros e transcrições gerados em um formato padrão e legível, como JSON ou CSV? Existe alguma ‘taxa de exportação’?”
Conclusão
Escolher um escriba com IA é mais do que comprar um software: é uma parceria que afeta sua integridade clínica, a privacidade dos seus pacientes e sua responsabilidade profissional. A demonstração e as promessas de economia de tempo não significam nada se o fornecedor falhar em segurança, precisão ou transparência. Ao fazer estas 20 perguntas inegociáveis, você deixa de ser um comprador passivo e passa a defender, de forma informada, os interesses do seu consultório.

